Crítica os críticos
Crítica aos "críticos"
Este fim de semana fui ver o filme Os Casamentos de Santo António com o meu pai. O meu pai é um grande fã de cinema, e antes de ver qualquer filme vai ler críticas e opiniões, principalmente do Jorge Mourinha (crítico no Público). Acha-lhe imensa piada, principalmente porque, segundo ele, quando o Jorge Mourinha dá uma estrela a um filme, é sinal de que o filme deve ser muito bom. Ora, acontece que este senhor decidiu dar zero estrelas ao filme. Zero. Nem uma estrelinha de consolação. E isto pôs-me a pensar: afinal, quem são os críticos?
Sejam críticos de cinema, de gastronomia, de música ou do que quer que seja, quem são estas pessoas que têm legitimidade para avaliar o trabalho dos outros? E, mais importante, quem é que decidiu que as opiniões destas pessoas valem mais do que as nossas, ao ponto de serem pagos para as dar?
Fui então procurar a definição de crítico e deparei-me com a ideia de que são profissionais que avaliam e julgam (definição esta do Priberam). Mas profissionais em quê, exatamente? Em ter opiniões? Em decidir o que é bom e o que é mau? É que, tanto quanto sei, gostar ou não gostar de um filme não é propriamente uma ciência exata.
Claro que percebo que um crítico de cinema possa ter conhecimentos técnicos sobre realização, argumento, fotografia e tudo o resto. Mas será que isso faz com que a sua experiência de um filme seja mais válida do que a de alguém que simplesmente pagou um bilhete para se entreter durante duas horas? E será que um crítico gastronómico, por ter um paladar mais treinado, pode decidir que um prato é mau, mesmo que outras cinquenta pessoas o adorem?
O que me faz confusão não é existirem pessoas que criticam. Afinal, todos nós o fazemos. O que me faz confusão é termos criado uma profissão à volta de algo tão subjetivo como o gosto pessoal e, mais ainda, atribuirmos a certas opiniões uma espécie de autoridade quase incontestável.
Parece-me até um bocadinho irónico que alguém passe meses, ou até anos, a trabalhar num projeto para depois chegar outra pessoa, sentar-se durante duas horas, escrever meia dúzia de parágrafos e decidir que aquilo vale zero estrelas.
Não estou a dizer que os críticos não possam ter opiniões, muito pelo contrário. Só não percebo porque é que havemos de tratar algumas opiniões como se fossem verdades absolutas, só porque vêm assinadas por alguém que tem a palavra "crítico" à frente do nome.
No fundo, talvez o meu pai tenha razão. Se calhar, da próxima vez que vir uma crítica de uma estrela, vou encará-la como uma recomendação. E se forem zero, melhor ainda.
Concordo e discordo (acontece-me sempre). Creio que esse crítico foi injusto e, neste caso, talvez até maldoso. A sua crítica equivale a boicotar o filme, quase parece zanga pessoal. Agora, eu beneficiei muito (e acho que a sociedade também) de críticos que ajudam a ver, a enquadrar, e não apenas a censurar. Quando li 'Unidade e diversidade em Fernando Pessoa', de Jacinto do prado Coelho, fiquei a compreender melhor Pessoa. Foi uma bela porta de entrada! O mesmo com 'Fragmentos de um discurso amoroso' de Roland Barthes (é ensaio mas também um texto literário) ou Walter Benjamin ou 'O silêncio dos poetas' de Alberto Pimenta. Um crítico pode ser um bom guia para, antes de nos deixar a pensar e cirandar sozinhos, dar algumas pistas ou linhas de força. No seu pior, o crítico é um porteiro que não nos deixa entrar porque "hoje é só para clientes habituais".
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