Tenho de escrever para o blog (importante)
Tenho de escrever para o blog (importante)
Tenho de escrever qualquer coisa para o blog de lit.marg26. Estou cheio de ideias. Não sei se escrevo um poema, uma crónica, uma peça dramática curta ou um conto? Estou indeciso há semanas. Segundas tento o poema, terças e quintas a crónica, quartas e sextas a peça e sábados o conto. O domingo serve para rasurar e rasgar as tentativas da semana.
Também tenho outro problema sério que é o de que os meus colegas tenham acesso ao meu texto. Tudo o que escrevo é altamente trivial, prosaico e sem nenhuma criatividade ou interesse. Era preciso que eles me conhecessem para saber a cabeça que eu cá tenho! O professor também, mas esse há de se aperceber da minha genialidade com mais facilidade (se não se aperceber é porque está ao nível dos alunos).
Em cima destas duas questões ainda há o português… Sou uma nódoa a escrever, meto vírgulas entre o sujeito e o predicado, não sei a diferença entre “há”, “à” e “Ás”, troco os pronomes na mesma frase e escrevo romances sem uma única vírgula ou um ponto lá no meio. A minha professora de literatura portuguesa do 11.º ano bem me dizia para ler mais, mas para quê? Quem verdadeiramente me conhece sabe da minha genialidade e ler é uma valente perda de tempo para génios, como sabemos. Prefiro usar o meu escasso tempo para tentar escrever qualquer coisa para o blog de lit.marg26.
Surpreendo-me pelo fim dos meus problemas ainda não ter chegado, mas há mais um. Recuso-me a escrever no computador ou a máquina. Tem de ser no papel. Só pode ser assim. Isto é um problema sério porque um bom texto tem de sair a jato, como aconteceu ao poeta que escreveu trinta e tal poemas a fio em cima da cómoda (não me lembro do nome dele mas acho que entendem a referência). Não quero ser igual a ele, quero ser melhor que ele! O que escreva é o que publico. Sem tirar nem pôr. Não me digno a teclar aquilo que no papel cantei. Tenho de arranjar alguém para me ajudar nesta tarefa. Não leio duas vezes o que escrevo. Não leio e ponto.
Setembro, 2026
A minha mãe estava a limpar-me o quarto (eu estava a tentar escrever um poema e, portanto, segunda-feira, o que aumentou ainda mais a minha raiva quando ela me interrompeu no meu processo de escrita para me trazer este mesmo papel. Tinha data de setembro, 2026. Hoje é dia 17 de dezembro de 2026, último dia de aulas. Não consegui escrever nada para o blog. Hoje tentava escrever um poema sobre amor não correspondido, um tema que me parece bastante interessante, pouco explorado e atual. Não sei o que daí sairá. Não sei se o publicarei. Não sei se publicarei alguma coisa no blog.
Mas sei uma coisa: sou o mais criativo e profundo daquela turma de idiotas. Mal eles sabem dizer pão. Talvez mereçam mesmo que eu não lhes apresente nada. É isso. Não me merecem.
Vou continuar a escrever o poema. Se o terminar, dou nota disso neste texto.
Gostei, Leonardo.
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